Rituais
religiosos e mise en scène filmica:
O exemplo do vale do amanhcer
Esta comunicação procura
descrever e analisar o uso do filme e da linguagem cinematográfica
na pesquisa em antropologia, a partir de um estudo sobre rituais realizado
na comunidade religiosa milenarista do Vale do Amanhecer (D.F., Brasil).
Apresento dados de minha tese de doutorado, na qual associei procedimentos
da metodologia clássica em antropologia a métodos audiovisuais,
em particular, o uso do filme (Super 8mm e vídeo Hi8mm) na
produção de imagens, destacando a observação
diferida das imagens rituais. As cerimônias religiosas do Vale
do Amanhecer caracterizam-se por um espetáculo visual que encontra
sua principal força no conjunto heteróclita das indumentárias
rituais e nas técnicas corporais dos adeptos. Com o objetivo
de celebrar o corpo, as indumentárias impõem limites
aos movimentos e gestos dos participantes, estabelecendo um padrão
de comportamentos rituais. A análise das numerosas mise en
scène rituais revela que o processo ritual é definido
por manifestações concretas, tais como os movimentos
de corpos, gestos e frases e que a tríplice aliança
dos atores (adeptos e pacientes), do cenário (o espaço
físico da comunidade) e das mise en scène rituais representadas
formam uma "auto-montagem" da sociedade, reconstituindo
no conjunto das aparências, as representações
do cotidiano. Da mesma forma, a análise das mise en scène
rituais comprova que, apesar do controle rígido imposto pelos
organizadores das cerimônias, existe um número considerável
de variantes e de derrogações à norma escrita
no decorrer da prática ritual. Enfim, a análise fílmica
colocou em evidência a existência de uma verdadeira lógica
do espetacular, sendo esta uma das chaves para a compreensão
do contexto ritual do Vale do Amanhecer.
Autor: Marilda Batista
Institución: Universidad Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
e-mail: marildabatista@hotmail.com